Quais Histórias Resgatamos Com A Moda Artesanal?

O fazer artesanal resgata saberes que atravessam o tempo e continuam atuais. Valorizar o manual é também impulsionar uma cadeia mais justa na moda.

Julia Caramés
22/12/2021

Produtos Artesanais Nay Sunset Wear

Você já deve ter se deparado, especialmente nos últimos tempos, com alguma marca de moda voltando seus olhos, ou uma coleção inteira, para peças artesanais. Elas estão nos desfiles internacionais, na valorização da moda brasileira e muitas delas estamparam seu feed nas redes sociais.

E até no âmbito das tendências a moda artesanal voltou a ganhar espaço. Nominada como craftcore, ressurge como oposição às relações hiperconectadas e instantâneas, produções massificadas e roupas rapidamente descartadas. Quando a moda volta a honrar memórias manuais que sempre estiveram aqui, topamos com uma herança ainda mais ampla do que o vestir.

Trabalhamos com várias bordadeiras pelo Brasil e cada uma delas possui uma técnica. Exploramos ao máximo seus diversos núcleos para apoiar várias mulheres. O Brasil possui muitas técnicas e muita riqueza em detalhes quando falamos de bordados”, nos conta Adriana Senise, criadora da marca Nay Sunset Wear.

Adriana também nos explica que optar por peças artesanais é parte de um olhar atento para uma cadeia mais justa dentro do ciclo de desenvolvimento de uma peça: “Quando eu criei a Nay Sunset Wear, me propus a criar a partir do melhor que eu poderia fazer, com os melhores tecidos nacionais, rastreáveis e com o melhor acabamento interno e externo. Quando desenvolvemos um bordado, primeiro pensamos em sua beleza para depois pensarmos no preço. É claro que esse é um fator de impacto, mas levamos nossas peças para quem apoia esse movimento, busca e consegue ver a qualidade, o carinho, o cuidado e o tempo desse fazer artesanal”.

O Fazer Manual de Frente com Uma Cadeia Justa

São muitas as mãos que tecem, costuram e nos entregam diferentes histórias que vestimos no nosso corpo. Como um espírito que avança em sociedade, o fazer artesanal têm trato com o tempo: despertar conexão e a liberdade do vestir. Liberdade que carrega em si a escolha de não se prender a um padrão massificado, mas também de libertar uma cadeia agressiva dentro da moda.

“O cultivo do algodão convencional, convém a quem? Porque não convém ao planeta Terra e não convém ao agricultor. O plantio convencional do algodão, é o segundo tipo de cultivo que mais mata agricultores em campo pelo uso dos agrotóxicos, além de gastar muita água nos processos. Então esse cultivo está matando o solo e os agricultores que estão em contato com essas toxinas. Nesse caso, quando compramos uma roupa, qual é a cadeia energética que estamos apoiando?” questiona, Adriana.

A criadora da Nay Sunset Wear aponta que é preciso integrar todos os participantes dessa cadeia para que essas memórias manuais sejam respeitadas e valorizadas. Todos fazem parte do processo: “Olhamos para a cadeia desde o início, no cultivo. Escolhemos tecidos sustentáveis, em paralelo à escolha do tema da coleção e das cores que vamos trabalhar. Como nossas peças são atemporais e acreditamos na atemporalidade do uso, costumamos trabalhar com cores que não são da moda, mas que produzem um efeito etéreo. A partir das modelagens, definimos as técnicas de bordado a serem utilizadas. Colorimos e brincamos com diferentes tipos de pontos e diferentes cores de linhas, como se fosse uma estampa, só que localizada e com bordados manuais".

O Que Guardam as Memórias Manuais

O fazer artesanal é parte da sabedoria popular, já foi marca registrada da categoria de luxo que triunfava costureiros e artesãos como criadores excepcionais que dirigiam a moda e já se equiparou também à fenômenos religiosos enquanto oferendas eram produzidas na humanidade primitiva que visava o equilíbrio espiritual entre céu e terra.

Quando vestimos uma roupa carregada de histórias, não nos limitamos a expressar apenas o que guardamos dentro de nós. “Nossas peças querem contar ao mundo a história de onde elas vem, desde quem plantou até os acabamentos finais. É um cuidado pensar que o que você consome está impactando no solo e na vida de alguém. Uma transparência, um carinho, um cuidado com o todo” explora, Adriana.

A criadora da Nay Sunset Wear, também indica que ao rastrearmos o desenvolvimento de uma peça, encontraremos desde o seu cultivo até o seu acabamento, integrantes essenciais para a roupa existir: “É preciso reconhecer o valor de cada uma dessas pessoas, sabendo que estão sendo remuneradas de maneira correta. Ter uma roupa que te traga alegria, que te faça sentir especial, que seja diferente e autêntica, algo que você não vê em qualquer lugar, está entrelaçado ao entendimento de que todas as pessoas envolvidas dentro do desenvolvimento de uma peça, deram o seu melhor. É isso o que desejamos passar ao mundo”.

Resgatar no artesanal suas diferentes formas de conexão nos lembra que o manual por mais simbólico que possa parecer, não se trata de uma realidade paralela. Evoca saberes que transcendem o tempo e que nos conectam com o que há de mais valioso em nós e naqueles que estão ao nosso redor.

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